A ÉTICA
DA PSICANÁLISE
Geraldino Alves Ferreira Netto
A etimologia grega da palavra ‘ética’ implica
numa ciência dos costumes,1 o estudo dos atos humanos enquanto
certos ou errados, segundo os critérios da moral. Uma distinção
era feita entre os atos voluntários, praticados com suficiente
conhecimento e escolha, e os atos ditos involuntários e supostamente
inimputáveis.
Tradicionalmente, a filosofia e a religião se ocuparam em estudar
e controlar os costumes e comportamentos das pessoas, seja propondo
ideais de felicidade, numa busca de prazer, seja proibindo ou moralizando
os prazeres desta vida em troca de felicidade futura.
A psicanálise rompe com a moral filosófico-religiosa
e propõe uma ética dos atos e desejos inconscientes ou
não sabidos. Freud tratou disto especialmente em dois textos: ‘Além
do princípio de prazer’ e ‘O mal-estar na civilização.’2
Pode parecer um paradoxo pensar em ética da psicanálise,
do ponto de vista de uma teoria dos valores, levando em conta que a
grande norma da psicanálise é justamente não impor
julgamentos de valores às pessoas. Entretanto, é fundamental
afirmar uma ética psicanalítica, em oposição às
técnicas psicoterápicas. A psicanálise não
trabalha com técnicas, não obstante ter Freud escrito
alguns textos chamados de técnicos, como ‘A dinâmica
da transferência’, nos quais ele enfoca a ética
do desejo (no analista e no analisante), como única diretriz
para o trabalho analítico. Coube a Lacan explicitar e apresentar
os argumentos metapsicológicos, em seu seminário sobre ‘A ética
da psicanálise.’
Mas, por que ética e não moral? A psicanálise é amoral.
Ela tem até sido considerada imoral, às vezes. Afinal,
receber pessoas em recinto fechado para falar da vida íntima
e da atividade sexual, entre outras coisas, pode ser considerado socialmente
perigoso. O próprio Freud se preocupou com essa questão
no relato do caso Dora. Como o público veria o fato de uma moça
confidenciar a um homem seus problemas pessoais? E como seria recebido
o conteúdo de seu livro? 3
Pode-se falar também de certa imoralidade relativa à própria
ação do analista, enquanto ganha dinheiro à custa
da escuta.
O que define a moral é uma conformidade com as exigências
da sociedade. Isso tem a ver com a moralidade pública.
Em oposição a essa conformidade com os ditames e normas
sociais, impõe-se uma ética que tem a ver mais com a
autenticidade do sujeito. Ser mais ‘si mesmo’. A famosa
fórmula que Kant propôs, como imperativo ético,
tenta uma conciliação entre a conformidade e a autenticidade: ‘Age
de sorte que a máxima de tua ação possa ser tomada
como máxima universal’. Por um lado, autenticidade do
sujeito com seus próprios princípios e, por outro, que
essa máxima seja para todos. Na psicanálise há uma
disjunção clara entre a conformidade e a autenticidade.
A ética da psicanálise difere também da ética
da filosofia: esta propõe a busca de um bem supremo, especifica
os meios para atingi-lo e define a ação correta para
consegui-lo. O que vai diferenciar as duas é que a ética
da filosofia é uma ética para todos, enquanto que a psicanálise
trata do particular.
Dos textos freudianos citados antes, depreende-se claramente que não
existe o bem soberano, não existe a felicidade. O que há é uma
falta (no sentido de ‘manque’ e de ‘faute’,
em francês), uma punição pelo assassinato do pai
da horda primitiva. Há uma pulsão de morte, que faz obstáculo
ao princípio do prazer. Além disso, o desejo é apresentado
como insaciável, e o objeto possível de satisfação
do desejo está para sempre perdido. É nessa trilha de
Freud que Lacan retoma o tema da ética da psicanálise.
Há dois momentos distintos de sua teorização:
1. A partir de 1959 até 1970, pode-se pensar na ‘ética
do silêncio’, também chamada de ética do
desejo. Ela implica em que, embora o analista fale, a sua fala não
vai impor nenhum preceito de conduta, nenhuma promessa de felicidade.
Lacan condena aí o que ele chama de ‘pastoral analítica’,
que corresponderia às promessas de cura e bem-estar. Na história
do movimento psicanalítico houve propostas de alguns teóricos
nessa direção, como W. Reich, no sentido da liberação
do desejo. Outra tentativa veio da Psicanálise do Ego, reivindicando
uma adaptação do sujeito ao mundo.
Em contrapartida, Lacan propõe pensar em um princípio,
o único que comportaria a ética, a saber, ‘agir
de acordo com o próprio desejo’, e acrescenta que, então, ‘a única
culpa que pode haver é ceder com relação ao próprio
desejo’.
A questão se toma complexa, se considerarmos a história
de Édipo. Teoricamente, ele teria todas as condições
de felicidade. Afinal, conseguiu realizar o sonho de todos: matar o
próprio pai e casar-se com a própria mãe, ter
filhos com ela. Mas, a conclusão a que Édipo chegou foi
de que teria sido melhor não ter nascido.
Lacan cita Kant e Sade. O imperativo categórico citado acima,
de que a ação de cada um seja a máxima de todos, é uma
máxima universal. E em Sade, o direito de gozar – ‘tenho
o direito de gozar de teu corpo, sem nenhuma limitação’ – só aparentemente é uma
máxima particular.
Essa primeira fase da teorização de Lacan corresponde
ao momento da elaboração do registro do simbólico.4
2. A partir de 1970, depois de ter introduzido, alguns anos antes,
o conceito de ‘objeto a’, Lacan trabalha o registro do
Real e elabora a ética do bem-dizer, ou ética do gozo.
Três formulações se distinguem, então:
a) Já que a psicanálise é uma prática que
procede pela via da palavra, no campo da linguagem, a ética é uma ‘ética
do discurso’, do particular, no que se opõe ao imperativo
categórico universal kantiano e ao direito ao gozo sadeano.5
b) Acrescente-se a ‘ética do bem-dizer’,5 que não
diz o que é o bem nem se confunde com os dotes de oratória.
O bem-dizer, que leva o sujeito a dizer o seu próprio desejo,
tem a ver, da parte do analista, com a interpretação
e a construção. Naquela, o analista está na posição
do ‘não penso’, enquanto a interpretação
surge de improviso, como um enigma. Já na construção
se supõe que o analista, aí, pensou.
Da parte do analisante, a ética do bem-dizer implica o meio-dizer,
já que a verdade não pode ser toda dita. A regra da associação
livre não pode ser cumprida totalmente. Assim, da parte do analisante,
o bem-dizer aproxima-se do chiste, onde também não se
diz tudo, embora se costume dizer mais do que se pensa dizer. Em outras
palavras, a associação livre é um convite para
aproximar cada vez mais o dizer e o dito, o enunciado e a enunciação.
c) Por fim, a última formulação: ‘o bem-dizer
que satisfaça’,6 que cause uma mutação na
economia do desejo, tomando-o mais forte, pela modificação
da posição do sujeito em relação ao dito.
A ética do bem-dizer e do gozo é também a ética
do supereu, de onde se pode falar em clínica do supereu ou clínica
do Real.
Lacan chama o supereu de gozo, na medida em que este constitui um bem
para o sujeito, um bem absoluto. Bem, entretanto, que não é da
ordem do bem-estar, mas, antes, da ordem do mal-estar, daquela satisfação
secreta que temos com nossos sintomas.
O desejo e o gozo são antinômicos. O gozo não é desejável,
e o desejo nem sempre é gozado. O desejo é metaforizado
pelo Nome-do-Pai e coordenado ao significante, na vertente do simbólico.
Já o supereu é a função ligada ao gozo,
não coordenado ao significante, na vertente do Real.
O imperativo do supereu não será, então, de que ‘não
faça isso porque é mau’, ou ‘faça
isso porque é bom’, mas o imperativo do supereu é: ‘goza!’ Isso
implica numa proibição, pondo limites ao gozo, já que
o gozo é impossível.
Daí que a tese de Lacan se enuncia: ‘A lei moral é aquilo
pelo qual, em nossa atividade, enquanto estruturada pelo simbólico,
se presentifica o real’. Trata-se do real do gozo, além
do princípio do prazer.7
A ética da psicanálise não se restringe ao desejo
do analisante. Ela implica também o desejo do analista. Esta é uma
nova categoria conceitual, proposta por Lacan, para substituir o conceito
enviesado de contratransferência. Para Lacan, a transferência é um
fenômeno que envolve o paciente e o analista. O analista, inclusive,
faz parte do conceito de inconsciente, enquanto destinatário
da transferência do paciente. Há, portanto, o desejo do
analista, que é desejo de que a análise aconteça,
que o analisante persiga seu próprio desejo, tome suas decisões
por si mesmo e se confronte com sua própria verdade. O analista
não tem que tomar partido por nenhum dos termos do conflito
inconsciente. ‘É a estrutura mesma do sujeito do inconsciente,
enquanto conceito da divisão do sujeito, o que impõe
essa suspensão, que é de ordem ética.’8
A contribuição de Lacan, nesse particular, consiste em
atribuir ao analista uma posição objetal. Enquanto Freud
subjetivava o analista como representando um sujeito na transferência,
Lacan prefere o analista numa posição que não é de
sujeito, de mestre, de ego, mas de objeto, ‘objeto a’,
objeto causa do desejo, semblante.
E sendo o desejo do analista aquilo que opera na análise, essa
operação vai consistir em manter a distância entre
o ideal e o objeto do desejo. Como o paciente idealizou o analista,
o desejo deste será de dissolver essa idealização,
de des-ser, “para ser suporte do ‘a’ separador.”9
Trata-se de uma ética sem ideal, inclusive porque, segundo Lacan,
aquele que cede quanto a seu desejo não abre caminho para a
felicidade.
E, para quase concluir, uma definição da ética
da psicanálise, proposta por J. A. Miller: ‘Discurso ou
disciplina relativa ao que se deve fazer de seus desejos e de suas
fantasias.’10
Bibliografia
1. Dictionnaire étymologique Du français, J. Picoche,
Les usuels du Robert, Paris, 1979, verbete "éthique".
2. Freud, S. Obras completas, E.S.B., vols. XVIII e XXI, Rio de Janeiro,
Imago.
3. Idem, vol. VII.
4. Lacan, J. Seminário VII - A ética da psicanálise,
Rio de Janeiro, Zahar, 1988.
5. Lacan, J. Télévision, Paris, Seuil, 1974.
6. Lacan, J. ... ou pire ... , in Scilicet, n° 5, Paris, Seuil,
1975.
7. Lacan, J. Seminário VII - A ética da psicanálise,
op. cit.
8. Serge Cottet, Freud e o desejo do psicanalista, Rio de Janeiro,
Zahar, 1989.
9. Lacan, J. Seminário XI - Os quatro conceitos fundamentais
da psicanálise, Rio de Janeiro, Zahar, 1979.
10. Miller, J. A. Conferência proferida no V Encontro Internacional
da Fundação do Campo Freudiano, Buenos Aires, jul. 1988.
Obs. Este texto, agora ligeiramente modificado, foi
originalmente publicado em ‘14 conferências sobre Jacques Lacan’,
de Fani Hisgail (Org.), Escuta, São Paulo, 1989.
|