Perversões
ou Perversão
Geraldino Alves Ferreira Netto
O conceito de perversão era usado na Psiquiatria para catalogar
comportamentos sexuais desviantes da norma. Freud designou como perversão
uma posição subjetiva direcionada ao desmentido da castração.
Segundo Lacan, a perversão é, sobretudo, um fato de linguagem.
Palavras-chave: perversão; psicanálise; linguagem.
Perversions or perversion
The concept of perversions was used in Psychiatry to list sexual
behaviors turning aside from the normal course. Freud called perversion
a subjective
position toward the disavowal of castration. According to J. Lacan,
perversion is more a fact of language.
Key-words: perversion; psychoanalysis; language.
Entre os muitos conceitos complexos e difíceis de definir,
na teoria psicanalítica, o de perversão ocupa um dos
primeiros lugares, gerando equívocos e ambiguidades, seja pela
abordagem médica e psiquiátrica com que é geralmente
tratado, seja pela contaminação moralista ou religiosa
de que dificilmente consegue escapar. Isto sem falar de outro vício
comum mesmo em publicações psicanalíticas, que
consiste em identificar a perversão com a homossexualidade,
fazendo desta última uma suposta estrutura clínica.
O termo perversões, no plural, surgiu na psiquiatria e na sexologia,
designando uma série de práticas sexuais consideradas
desviantes com relação à norma social ou moral,
ora num sentido pejorativo, ora positivamente valorizadas.
A partir de 1850, os manuais de psiquiatria elaboraram a primeira
lista oficial das perversões com os seguintes itens: incesto, homossexualidade,
zoofilia, pedofilia, pederastia, fetichismo, sadomasoquismo, transvestismo,
narcisismo, autoerotismo, coprofilia, necrofilia, exibicionismo, voyeurismo,
mutilações sexuais.
A entrada em cena da psicanálise, pela porta da histeria, fez
com que Freud elaborasse minuciosamente e dominasse com bastante segurança
a teoria das neuroses. Entretanto, e consequentemente, a compreensão
do fenômeno neurótico trazia em seu bojo, pelo lado avesso,
o conceito de perversão, já agora no singular. Assim,
em 1897, em carta a Fliess, Freud fez a famosa afirmação
de que a neurose é "o negativo da perversão".
Entendia, com isso, que tudo o que o neurótico recalca é justamente
aí que o perverso acentua o caráter bárbaro, polimorfo
e pulsional de uma sexualidade infantil, em estado bruto, que não
respeita devidamente a interdição do incesto, nem o recalque,
nem a sublimação. Freud adota o conceito de perversão
ainda como desvio sexual em relação a uma norma, embora
desprovido de qualquer conotação pejorativa ou valorativa,
fundando aí o trio das estruturas clínicas:
a neurose, novo domínio incontestável da psicanálise;
a psicose, tradicional domínio da psiquiatria;
a perversão, campo antes dominado pelo direito e pela sociologia,
como perversões.
O conceito psicanalítico de perversão propriamente dito
só foi elaborado depois que surgiu a teorização
sobre as pulsões, em substituição aos instintos.
Assim, as perversões, ligadas aos instintos, apontam para desvios,
aberrações e inversões na função
biológica, partindo do pressuposto de que o objetivo da sexualidade é a
reprodução, cujo objeto é definido. Já a
perversão, no rastro da pulsão, cujo objeto é indefinido
e que aposta na finalidade de obter prazer na sexualidade, designa
uma posição subjetiva diante da castração
e da lei.
Na história da humanidade, as perversões sempre ocuparam
um lugar de destaque nas artes, tanto no Oriente como no Ocidente,
com variações e nuances de acordo com cada época,
cada país ou cultura, acompanhando os costumes. Ora eram marginalizadas
pela sociedade e pela religião, ora eram altamente valorizadas
na literatura, na poesia, na filosofia, como superiores às práticas
ditas normais.
Ainda hoje, por exemplo, a mutilação sexual feminina
(excisão e infibulação) é aceita e praticada
em algumas regiões da África, com a finalidade de abolir
o desejo e o prazer sexual das mulheres, ao mesmo tempo em que é considerada
um crime na Europa. Na China ainda se pratica o genocídio infantil
feminino, com a finalidade de controlar o aumento da população
feminina, considerada improdutiva. A emasculação dos
homens no Antigo Egito e na Índia foi aceita ou não,
dependendo de circunstâncias históricas. O próprio
cristianismo produziu seus eunucos, para garantir a harmonia melodiosa
dos sopranos masculinos, nos corais das catedrais.
Na Grécia Antiga, a homossexualidade era a forma suprema do
amor desinteressado, cantada em prosa e verso n’O Banquete de
Platão. No cristianismo, ela é considerada vício
e pecado ainda hoje. Na psiquiatria do século passado, era uma
degenerescência.
E mais recentemente, em 1974, alguns países democráticos
começaram a incluir em sua legislação o casamento
entre homossexuais, com todos os direitos contratuais, até mesmo
permitindo a adoção de filhos e as garantias de herança
e de bens. No Brasil, começa um movimento reivindicatório
nessa direção.
Em Freud, sobretudo no início, a teoria da perversão
e da homossexualidade ressente-se da mesma ambiguidade que caracterizou
sua visão sobre a sexualidade feminina. Por um lado, ele rejeita
qualquer ideia de tara ou degeneração na perversão,
quando aplica a todas as pessoas, especialmente na infância,
a "disposição perversa polimorfa". Por outro
lado, conserva a ideia de norma e desvio na sexualidade, que só aos
poucos vai se arejando.
A partir de 1905, aquele mesmo Freud que era admirado
e cumprimentado nas ruas de Viena, por causa de
suas teorias
sobre a interpretação
dos sonhos, passa a ser malvisto, após a publicação
de seus ‘escandalosos’ ensaios sobre a teoria da sexualidade,
especialmente a infantil, teoria essa que foi um dos lampejos mais
profundos, fecundos e clarividentes que já se produziram a respeito
dessa singela criatura chamada criança. Reutilizando o plural ‘perversões’,
o mestre distingue dois tipos: as perversões de objeto e as
perversões de objetivo.
O objeto da sexualidade pode ser:
O humano (incesto, homossexualidade, pedofilia,
autoerotismo);
O não-humano (fetichismo, zoofilia, transvestismo).
Com relação ao objetivo da sexualidade, há três
tipos de prazer:
O visual (exibicionismo, voyeurismo);
O de sofrer ou fazer sofrer (sadismo, masoquismo);
A superestimação exclusiva de uma zona erógena,
como a boca (felação) ou o aparelho genital.
Nenhuma dessas práticas sexuais é intrinsecamente perversa.
Desde que produza prazer, o ato é simplesmente uma forma a mais
dentro do polimorfo. A designação de perversão é extrínseca
ao ato em si, e é definida pela exclusão de outras práticas
prazerosas. O ato seria então perverso não pelo que se
faz, mas pelo que se deixa de fazer. E foi justamente neste ponto que
Freud levantou a dúvida cruel, assinalada em nota de rodapé,
se a heterossexualidade, quando praticada com exclusividade, não
seria também classificável como perversão.
De 1915 em diante, com a metapsicologia e, depois, com a segunda
tópica,
Freud dá o passo decisivo das perversões para a perversão
como paradigma da organização do ego, baseado no conceito
de clivagem.
De 1923 a 1927, Freud busca desesperadamente um mecanismo que
dê conta
da psicose e da perversão. Nos textos sobre "A organização
genital infantil", de 1923, "A perda da realidade na neurose
e na psicose", de 1924, "A negação", de
1925, "Inibições, sintomas e angústia",
de 1926, e "Fetichismo", de 1927, introduz o conceito de
Verleugnung, ou desmentido, mostrando que as crianças negam
a realidade da falta de pênis na menina. Neste momento, este
mecanismo de defesa caracteriza a psicose, pela negação
da realidade, enquanto que, na neurose, há o recalque das exigências
do id.
Entretanto, para chegar à Verleugnung, foi necessário
um longo percurso. Em 1927, Freud entra em contato com o francês
René Laforgue, o qual já havia citado em alguns dos textos
acima, e com quem discute sobre o conceito de escotomização,
surgido de um outro conceito utilizado de 1895 a 1917, que era a alucinação
negativa.
Laforgue, citado por Elisabeth Roudinesco (1988), foi o
primeiro discípulo
francês de Freud, um dos introdutores da psicanálise na
França, e diretor do Grupo Evolução Psiquiátrica.
Escreveu o livro La psychanalyse et les névroses, e ficou famoso
como clínico, principalmente pelos trabalhos com pacientes psicóticos.
De certa feita, foi informado sobre um paciente que não conversava
com ninguém, já havia doze anos, e que proferia sempre
uma única e mesma frase. Apesar de aconselhado a não
perder tempo com este caso, em que todos haviam fracassado, Laforgue
assume o desafio de fazer o paciente falar. Dirige-se a ele e pergunta: “quem é você?” Resposta
de sempre: "Sou o cavalo de Nancy, com a mulher em cima".
Ao que Laforgue retrucou: "Bom dia, Joana d'Arc". E o paciente: "Até que
enfim, um homem me compreende". E voltou a falar normalmente.
Laforgue fez supervisão com Freud, bem como manteve uma longa
correspondência com o mestre. No texto sobre O Fetichismo, Freud
cita uma frase do discípulo: "O menino escotomiza sua percepção
da falta de pênis na mulher". Mais tarde, afastou-se de
Freud por causa de ciúmes pela princesa Maria Bonaparte.
Outro nome decisivo nesse momento importante da teoria
psicanalítica é o
do pouco citado Édouard Pichon, autor da famosa Gramática,
em sete volumes, e de um artigo intitulado "Sur la signification
psychologique de la négation en français". Ele aprofundou
o conceito de escotomização, que na oftalmologia indicava
uma impressão visual incidindo sobre um ponto cego da retina,
aplicando-o à psicanálise como "um mecanismo inconsciente
ou uma cegueira, pelo qual o sujeito faz desaparecer da memória
ou da consciência certos fatos desagradáveis".
Segundo E. Roudinesco, Pichon chegou ao inconsciente
freudiano através
da gramática. Afirmava que a negação gramatical
tinha a ver com a separação entre consciente e inconsciente.
E a língua francesa tem uma particularidade ímpar com
relação à negação. A frase negativa
utiliza dois advérbios ao mesmo tempo, dos quais nenhum por
si só é negativo. Antes do verbo, vem a partícula
ne, e depois do verbo podem vir pas, rien,
jamais. Numa linguagem erudita,
o ne pode ser suprimido: J’en sais rien (não sei nada
disso). Portanto, o elemento negativo está mais no segundo membro.
A particularidade consiste no seguinte: quando o segundo membro é constituído
por rien, aucun, personne, plus, guère etc, a negação
aplica-se a fatos que o locutor já não encara como fazendo
parte da realidade. O seguinte diálogo de uma entrevista jornalística
ilustra a questão: "O caso Dreyffus, disse Esterhazy, é para
mim um livro fechado para sempre". Resposta do jornalista: "Il
dut se repentir de l'avoir jamais ouvert" (deveria arrepender-se
de tê-lo aberto algum dia).
O fato aludido estava forcluído. Pichon chamou de forclusiva
a segunda parte da negação na língua francesa.
Um fato acontecido era afetivamente excluído do passado.
Numa outra característica da língua, a expressão
ne ... que acumula, ao mesmo tempo, uma afirmação e uma
negação, como na frase: je ne parle que français
(eu só falo francês). Nesta frase há uma negação
(eu não falo) e uma afirmação (eu falo), exatamente
como Freud concebia a denegação na clássica frase
de seu paciente: não é minha mãe, que deve ser
entendida como: (é minha mãe, mas não suporto
isto). Aliás, é pouco provável que Pichon tivesse
conhecimento do texto de Freud sobre A Denegação, escrito
em 1925, mas só traduzido para o francês em 1934.
Pichon teve, portanto, um papel essencial na
história da psicanálise.
Aprofundou a polêmica Freud-Laforgue sobre a escotomização
e inventou, em 1928, o conceito mais apropriado de forclusão,
tirado de um fenômeno da língua, como que antecipando
a tese lacaniana do inconsciente estruturado como linguagem. Enquanto
a escotomização mantinha a psicose como patologia médica,
a forclusão situava o mecanismo da psicose como fenômeno
de linguagem, e não como anomalia. Curiosamente, e estranhamente,
o Vocabulário de psicanálise publicado pela dupla Laplanche-Pontalis
(ex-analisandos de Lacan) atribui a invenção do conceito
de forclusão a Lacan, sem nenhuma referência a Pichon.
O próprio Lacan apresentava-se como autor da façanha.
Entretanto, 25 anos depois, no Seminário I, em 1954, Lacan retoma
o mesmo debate, agora com Jean Hyppolite, não mais pela vertente
da escotomização, mas da denegação.
A algumas particularidades da língua francesa, portanto, devemos
os conceitos de denegação, desmentido e forclusão.
Com base na experiência clínica com o elemento fetiche,
Freud postula que, na perversão, há duas realidades opostas
e simultâneas: por um lado, a negação e, por outro,
o reconhecimento da ausência de pênis na mulher. Ausência
esta que o fetiche escamoteia. É a mesma clivagem do ego, antes
entendida como mecanismo da psicose, agora estendida à neurose
e à perversão, que passa a se alinhar com as estruturas
clínicas, assim descritas:
Neurose: conflito interno, seguido de recalque;
Psicose: reconstrução de uma realidade alucinatória;
Perversão: denegação ou desmentido da castração,
com fixação na sexualidade infantil.
Sendo assim, o percurso de Freud até então consistiu
em ultrapassar a descrição das perversões, para
chegar a um mecanismo geral da perversão que, mais do que apontar
para uma disposição polimorfa infantil, descreve a atitude
de uma escolha subjetiva diante da diferença anatômica
dos sexos, tanto no homem quanto na mulher.
Depois de Freud, de 1930 a 1960, seus
discípulos continuaram
a estudar a perversão, mas abdicaram do espírito do mestre,
a ponto de proibir os perversos, agora identificados aos homossexuais,
de praticar a psicanálise em todas as sociedades ligadas à IPA,
sob o pretexto de que poderiam prejudicar os pacientes, numa época
em que nem mais a psiquiatria encarava as perversões com moralismo.
Com Lacan, a perversão ganha status inconteste de estrutura,
juntamente com a neurose e a psicose, que passam a ser pensadas como
versões diferentes da relação do sujeito com a
lei da castração, cada versão podendo ser chamada
de Père-version, a versão do Pai.
Ligado à tradição da poesia erótica, da
filosofia de Platão e da corrente libertina na literatura, Lacan
afirmava que somente os perversos sabem falar da perversão.
Além disso, Lacan aprofunda dois conceitos da psicanálise,
o desejo e o gozo, dizendo que a perversão é uma componente
do funcionamento psíquico do homem e da mulher, um desafio permanente à lei.
Em 1956, no seminário sobre A relação de objeto,
que é mais uma teoria da falta de objeto, esclarece que, se
existe alguma inversão (termo usado por Freud), é a inversão
(ou deslocamento) do simbólico pelo imaginário, característica
da perversão. É assim que Lacan interpreta a afirmação
de Freud, segundo a qual a neurose é o negativo da perversão:
"
Aquilo que estava articulado de maneira latente no nível do
grande Outro começa a se articular de maneira imaginária, à maneira
de perversão, e é, aliás, por essa razão
e não por outra que isso vai resultar numa perversão" (p.120).
Como consequência dessa inversão e do desmentido, a perversão
vai se caracterizar pela dessubjetivação:
"
Resta, com efeito, uma dessubjetivação radical de toda
a estrutura, em cujo nível o sujeito ali está reduzido
ao estado de espectador. (...) No nível da fantasia perversa,
todos os elementos estão lá, mas tudo o que é significação
está perdido, a saber, a relação intersubjetiva.
O que se pode chamar de significantes em estado puro mantém-se
sem a relação intersubjetiva. (...) Vocês vão
encontrar aí o que eu chamei de metonímia, que consiste
em dar a escutar alguma coisa, falando de uma coisa completamente diferente.
(...) Existe aí como que uma redução simbólica,
que eliminou progressivamente toda a estrutura subjetiva. (...) Trata-se
de um jogo de tapeação", um falso pacto.
Nesse ponto, Lacan está comentando o texto freudiano "Psicogênese
de um caso de homossexualidade feminina", de 1920, que ele denomina "A
jovem homossexual": Uma moça decide aproximar-se de uma
prostituta, com a qual supostamente inicia uma relação
amorosa. Saem as duas ostensivamente pelas ruas, de mãos dadas.
A prostituta, ao que tudo indica, está envolvida apaixonadamente.
Mas a moça não quer outra coisa que se exibir com ela
para impressionar o próprio pai, do qual estaria assim exigindo
um outro tipo de atenção, a saber, um amor desinteressado,
como o dos homossexuais, do qual não se pode esperar um filho.
Ao ser duramente recriminada pelo pai, ela ameaça suicidar-se,
justamente na hora em que sua mãe estava às vésperas
de ter um filho dele.
O que caracteriza este
caso como perversão não tem nada
a ver com as possíveis ou supostas ‘transas’ sexuais
aí envolvidas, mas sim com o fato de que a moça usou
a prostituta como instrumento para conseguir objetivos totalmente outros,
camuflados num interesse sexual, e que não foram devidamente
explicitados. É o jogo da tapeação.
No filme italiano
La condanna (O
processo do desejo),
de 1991, dirigido
por Marco
Bellocchio, supervisionado
por
um psicanalista
lacaniano,
apresenta-se uma
situação semelhante à do caso
acima. Uma mulher (Andrzej Sewerin) tira o dia para fazer uma visita
a um grande museu. Fica toda entretida com as obras de arte, que sempre
admira. Na hora de fechar o expediente do museu, um rolo compressor
de funcionários e seguranças costuma rastrear os visitantes,
pelo menos no Louvre é assim, convidando-os delicadamente a
se retirar. Essa mulher escapou da vigilância nesse dia, mais
por distração do que por premeditação.
E percebeu, depois de algum tempo, que ficara trancada sozinha no museu.
Condenada pelo
destino a passar
toda a noite
ali, resolve
relaxar e ...
continua a observar
as obras
de arte.
Depois de perambular
algumas
horas, dá de cara com um homem (Vittorio Mezzogiorno) que também
se deleitava apreciando os quadros famosos, supostamente perdido na
noite como ela. Os dois se apresentam, acham graça no insólito
da situação, e seguem juntos no turismo acidental. Nada
melhor que este cenário para se imaginar o que vai rolar a seguir.
Pinta um clima, os dois deitam e rolam, a mulher adora, havia tempos
que não desfrutava de uma noitada tão divertida quanto
inesperada. Foi bárbaro. Estava muito grata pelo prazer proporcionado
por seu amigo notívago, e continuaram a fazer hora até o
raiar do dia, quando os portões seriam abertos. Daí a
pouco iam se despedir. Talvez trocassem os telefones, ou marcassem
um próximo encontro. Começando já a se preocupar
com os compromissos daquele dia, ela consulta o relógio, quando
então o homem declara que tinha a chave do museu e que poderiam
sair de imediato. Nisso a mulher percebe o equívoco todo, sente-se
injuriada e usada. Ressignificando retroativamente tudo o que acontecera
naquela noite, sai à procura de um advogado, processando o homem.
Ganha a batalha judicial.
Onde está a perversão nesse caso?
Não está no sexo que fizeram, aliás, todo certinho.
A perversão está no fato de o homem ter usado a mulher
como instrumento do próprio gozo, criando todo um entorno simbólico,
quando sua intenção imaginária era outra, já que
não declarou de imediato que possuía a chave. Ela foi
enganada. É o mesmo jogo da tapeação
feito pela
jovem homossexual.
Com a redução simbólica, por meio da metonímia,
o registro do imaginário passa a organizar os outros dois registros
na perversão, assim como na neurose esta função
cabe ao simbólico, pela metáfora paterna, e na psicose é o
real que comanda, na ausência da metaforização.
Isto é, o lugar da lei varia em cada estrutura clínica:
na psicose, a lei está do lado da mãe como o Outro Absoluto;
na neurose, a lei está do lado do Grande Outro, o Pai; na perversão,
devido à redução simbólica, a lei está no
pequeno outro, no próprio sujeito que se assujeita, sim, à lei
do Pai, mas com a condição de cumpri-la a seu jeito,
ao seu bel-prazer, que é sua
maneira de
desmentir a
lei.
Na perversão, o sujeito finge utilizar o simbólico dentro
dos códigos convencionais da linguagem, mas introduz um sentido
todo seu, criando uma ambiguidade da qual vai se beneficiar, em detrimento
do outro, e/ou sem o consentimento deste. A perversão, assim
entendida, é um fenômeno de linguagem, não um ato
ou um fato sexual. A metonímia, de que fala Lacan, significa
etimologicamente que algo vai além do nome, da palavra, que
um determinado significante (puro, porque só aparentemente é um
elo na cadeia) é usado fora do contexto, deslocado da significação
convencionada pelo código, provocando uma atribuição
de sentido da parte do ouvinte, diferente do sentido que o emissor
intenciona. O significante puro, para Lacan, é um significante
objetivado, mais signo que significante. Ora, o signo não representa
(ou não produz) um sujeito. Para que um sujeito se constitua,
um significante deve representá-lo para outro significante na
sequência da cadeia significante. Daí a saída perversa
pela dessubjetivação.
Naturalmente,
qualquer
significante
dá margem à ambiguidade
em virtude do deslizamento do significado. Mas há um referencial
socialmente aceito e um limite de equivocação que na
perversão é ultrapassado, constituindo a "desmentira" do
mal-intencionado. A saber, o mal-entendido, inerente ao registro do
simbólico, é essencialmente diferente do mal-intencionado,
no registro do imaginário. Aí está a inversão.
Confrontando
as
propostas de Sade,
autor
de
Justina e de
Filosofia
na
alcova,
com
os
imperativos categóricos de Kant na Crítica
da razão prática, Lacan (1966) tenta conciliar o que
parece impossível:
a fantasia
sadiana
com
o imperativo
kantiano.
Diz
Sade: "Tenho o direito de gozar de teu corpo, e este direito
eu o exercerei sem que limite algum me detenha no capricho das extorsões
que me dê gosto de nele saciar".
Já a proposta kantiana diz: "Faz de tal modo que a máxima
de tua ação possa ser tomada como uma máxima universal" (p.111).
Essas
considerações desenvolvidas por Lacan, em 1966,
culminaram com a sugestão de fazer do mal, no sentido sadiano,
um equivalente do bem, no sentido kantiano. Na perversão,
o sujeito se
transformaria em
objeto de
gozo oferecido
a Deus, subvertendo
a lei, e desejando
inconscientemente anular-se
no mal
absoluto e no
aniquilamento de
si.
A
partir daí, perde sentido o diagnóstico de incurabilidade
da perversão, e caduca a proibição de acesso dos
perversos (não necessariamente perversos sexuais) à prática
da psicanálise nas instituições psicanalíticas.
Em
1972, Joyce
McDougall, no
livro Plaidoyer
pour une
certaine anormalité, postula que o modelo da tríplice estrutura clínica é rígido
demais para explicar as perturbações sexuais e as desordens
narcísicas. Propõe os conceitos de neossexualidade e
de sexualidade aditiva para as formas de sexualidade ligadas à droga
e à toxicomania, que permitem a certas pessoas, beirando à loucura,
encontrar o caminho da cura, da criatividade e da realização
de si mesmas. É a visão de um caráter curativo
da perversão, semelhante ao que Lacan atribuiu à paranoia
de autopunição, no caso Aimée.
Em
1995, foi
publicado o
DSM -
IV -
TM -
Manual Diagnóstico
e Estatístico de Transtornos Mentais, em quarta edição,
pela Editora Artes Médicas. A grande novidade e avanço
teórico da atual psiquiatria consiste em "deletar" os
conceitos de perversões e de homossexualidade, que nem constam
mais no índice geral. Para substituir os "antigos" conceitos,
esse manual inventa a nova denominação de "parafilias".
E as enumera
na seguinte
listagem:
Exibicionismo;
Fetichismo
transvéstico;
Fetichismo;
Frotteurismo
(tocar ou
esfregar-se numa
pessoa);
Masoquismo
sexual;
Pedofilia;
Sadismo
sexual;
Voyeurismo;
E,
sem outra
especificação, escatologia telefônica
(telefonemas obscenos),
necrofilia, parcialismo
(foco em
uma parte
do corpo),
zoofilia, coprofilia,
clismafilias (enemas)
e urofilia (urina).
Com
relação ao parceiro, a "parafilia" pode
contemplar: um sujeito (pedofilia, sadomasoquismo); o próprio
corpo (transvestismo,
exibicionismo); um
animal ou
objeto (zoofilia,
fetichismo).
Certamente
que a
influência da psicanálise foi decisiva
nessa virada da psiquiatria. Substituir o significante "perversões" por "parafilias" e
eliminar a categoria de homossexualidade tem, pelo menos, o mérito
de livrar-se de uma contaminação moralista e discriminatória
que dominou soberana todo um saber médico-psiquiátrico,
durante tanto tempo. Apraza aos céus
que um
significante novo
engendre novas
ideias.
O
avanço que a psicanálise realizou com a teorização
sobre a perversão consiste em desvinculá-la da patologia
mórbida, do moralismo social ou religioso, do preconceito sexual.
Caracterizá-la como estrutura clínica, uma estrutura
de linguagem, como uma escolha subjetiva, no sentido em que Freud falava
da escolha das neuroses, é vinculá-la à lei ou
versão do Pai, como uma alternativa. Com isto, a homossexualidade,
do mesmo modo que a heterossexualidade, ou qualquer outra prática
sexual, passa a ser um sintoma localizável em qualquer uma das
estruturas clínicas.
Referências bibliográficas
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Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.
Obs. Este artigo foi publicado originalmente na Revista
Estilos da Clínica, USP-SP, v. IV, nº 6, São Paulo,
1999.