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O corpo ‘siliclônico’
Geraldino Alves Ferreira Netto


Dentro do contexto psicanalítico, na esteira da reflexão filosófica, falar em corpo provoca imediatamente seu complemento, a mente. Na linguagem popular, é aceito que a mens sana só coaduna com o in corpore sano. Isto aponta para um impasse irresolúvel, desde sempre, na história da humanidade, sobre como conciliar essas duas entidades, se é que são duas mesmo ou uma só.
Um rápido olhar sobre a história nos mostra a dificuldade da resposta:

a) Na tradição cristã, o dualismo explícito vem sendo mantido oficialmente, seguindo o espírito da narração bíblica do Gênesis, segundo a qual Deus teria criado primeiro o corpo, insuflando a alma depois. Por sua vez, a alma continua existindo depois de separada, pela morte, do corpo. E a imortalidade da alma lhe confere uma superioridade inconteste sobre o corpo. A ideia da unidade do homem só teve um defensor, na pessoa de Tertuliano (155 a 220), para o qual a alma seria um corpo sutil.

Grandes expoentes da teologia católica, como Santo Agostinho (430) e Tomás de Aquino (1274), foram buscar, na teoria aristotélica do hilemorfismo, os fundamentos para o dogma cristão. Para Aristóteles, todos os seres corpóreos são compostos de matéria-prima e forma substancial, correspondentes aos conceitos de corpo e alma do cristianismo. A matéria é a mesma para todos os corpos, que se diferenciam uns dos outros pela forma que os determina. Teríamos, então, a forma mineral e as almas vegetal, animal e racional. Com exceção da forma racional ou alma humana, as demais formas são necessariamente ligadas à matéria, não podendo a matéria existir sem a forma, nem a forma sem a matéria. A alma humana, por ser imortal, pode separar-se do corpo, sendo substituída pela chamada forma cadavérica.

b) O judaísmo, em seus mais de cinco mil anos de existência, não conseguiu elaborar uma teoria conclusiva sobre a questão corpo-mente1. Nos relatos bíblicos, há uma tentativa de unificação, considerando partes do corpo, por exemplo, coração, rins, intestinos, como sedes dos sentimentos. Mais tarde, com o Talmud, nos séculos II a VI, passou-se a admitir a existência de duas entidades, sendo a alma uma hóspede do corpo. E já na Idade Média, Platão e Aristóteles são incorporados ao pensamento judaico. A alma é uma substância ou forma independente, que dirige o corpo e é superior a ele. Os pensadores modernos preferem considerar o homem como parte de um corpo coletivo, o povo judeu.

c) Em todas as filosofias do Oriente, existe a crença na preexistência da alma. A encarnação na matéria é resultante dos apegos da alma, e sua evolução consiste, conforme a tradição budista, por exemplo, no lento processo de desapego ou não-realização dos desejos. O Carma, ou lei de causa e efeito, é a prisão da alma no corpo, ou seja, o que a leva a reencarnar-se, buscar um corpo para continuar seu processo de aprendizado na terra.

d) Apenas como uma breve referência à questão do corpo no século XXI, seria preciso citar, de passagem, a teoria proposta por Richard Gerber, no livro "Medicina Vibracional"2, baseada nas descobertas da Física einsteiniana, para demonstrar que a matéria é energia e o que varia são as frequências vibratórias, as quais dão formas mais ou menos densas ou sólidas a uma mesma manifestação da vida. Nesse sentido, a dicotomia corpo-mente passa a ser irrelevante. Algumas terapias atuais, como a homeopatia, os florais, a antiga acupuntura e muitas outras, buscam explicação científica na Medicina Vibracional.

Ainda segundo o autor, para os egípcios, gregos, chineses, indianos, entre outros, não existe um corpo, existem vários corpos na mesma pessoa. Cada manifestação da energia (embora eles não usem esse termo), constitui um corpo. Atualmente, a ciência já trabalha com o corpo etérico e astral, através de algumas evidências experimentais. Como exemplos, a acupuntura, homeopatia, ressonância magnética, fotos Kirlian, a radiologia, a eletroterapia etc. No campo astral, sede das emoções, estariam todas as abordagens Psi. O ramo da Psicologia que mais estuda esse campo, dentro do enfoque da multidimensionalidade humana, é a Psicologia Transpessoal. Sua atuação terapêutica baseia-se na capacidade curativa das dimensões superiores da consciência. Por isso, seu enfoque teórico mais importante são as formas experienciais de acesso a estados ampliados de consciência.

Além do corpo astral, admite-se também a existência do corpo mental, responsável pelos pensamentos lógicos e racionais, e o corpo causal, domínio do inconsciente (não só o inconsciente freudiano). Depois, existem corpos superiores e espirituais, com os quais a Medicina Vibracional não se ocupa.

Ainda dentro dessa referência a um enfoque que vem ganhando destaque no meio terapêutico, seria importante esclarecer que a ideia de vários corpos não esfacela o ser humano em múltiplos pedaços com funções diferentes. Pelo contrário, todos estão interligados e são mutuamente dependentes entre si. O que existe são manifestações diferentes da energia. O conceito de Chacras dá bem essa ideia de interligação, porque demonstra a passagem de uma forma sutil de energia para outra mais densa, através das glândulas, sua distribuição ao longo do corpo pelo sistema endócrino e, por fim, a complexa rede dos meridianos e dos nádis, levando essa energia para as células.

A teoria dos corpos espirituais tem sido mais trabalhada pela corrente chamada esotérica, onde se destacam, pelo nível de organização, a Teosofia, os Rosacruzes, as filosofias orientais (budismo, hinduísmo, taoísmo) e a teoria espírita desenvolvida pelo francês Alan Kardec. Segundo todas essas abordagens, o espírito é a forma mais elevada da energia, e se sobrepõe ao corpo físico, inclusive manifestando-se "apesar" dele.

e) Freud não quis perder tempo com discussões filosóficas. Seu interesse clínico era mais imediato. Em seu último ano de vida, no "Esboço de Psicanálise", declarou:


“ A psicanálise faz uma suposição básica, cuja discussão se reserva ao pensamento filosófico, mas cuja justificação reside em seus resultados. Só conhecemos duas espécies de coisas sobre o que chamamos nossa psique (ou vida mental): em primeiro lugar, seu órgão corporal e cena de ação, o cérebro (ou sistema nervoso) e, por outro lado, nossos atos de consciência, que são dados imediatos e não podem ser mais explicados por nenhum outro tipo de descrição. Tudo o que jaz entre eles é-nos desconhecido, e os dados não incluem nenhuma relação direta entre estes dois pontos terminais de nosso conhecimento. (...) Não se pode discutir que a libido tenha fontes somáticas, que ela flua para o ego de diversos órgãos ou partes do corpo. (...) As partes mais proeminentes do corpo, de que esta libido se origina, são conhecidas pelo nome de 'zonas erógenas', embora, de fato, o corpo inteiro seja uma zona erógena desse tipo"3.

Assim, o sintoma, etimologicamente aquilo que cai junto (com o corpo), pode ser entendido como a palavra que se infeccionou dentro do corpo.

Freud nunca apontou para qualquer tipo de preexistência ou de sobrevivência de alma, espírito, psique, inconsciente, ou seja lá o que for. Pensa o ser humano como uma unidade, um corpo habitado por um sujeito do inconsciente, um corpo essencialmente erógeno, em oposição ao corpo anátomo-fisiológico, ou organismo, da medicina ou da religião, e coloca a morte como o ponto final natural de uma existência que tenha sido marcada pela pulsão de vida.

O título proposto para discussão, "O corpo no século XXI", sugere que, para os próximos cem anos, deva haver alguma especificidade ou alteração significativa no corpo humano. Um século pode ser um período longo demais para se fazer previsões, numa era de informática, em que as coisas acontecem on-line. Por outro lado, pode ser um período curto demais, se adotamos outros referenciais. Freud, por exemplo, se perguntou, há cem anos, se a biologia iria prevalecer sobre a psicanálise, e não temos resposta ainda. Mas surge nova pergunta sobre o possível triunfo das neurociências.

Há algumas evidências atuais de novidades no trato com o corpo, como o uso indiscriminado dos implantes de silicone para modificar as formas, ampliando os volumes, ou sua redução e modificação através de cirurgias plásticas, da lipoaspiração, transplantes de órgãos, transplantes de cabelo para os que não suportam sua falta. Com o incentivo às doações de órgãos, será possível a criação de supermercados de coração, rim, pulmão, córnea, medula etc, que irão compor corpos despedaçados, com várias porções de identidades alheias.

Nas academias, busca-se a musculação, nos spas, o emagrecimento, nas passarelas desfilam macérrimas top-models, nas clínicas de fertilidade e nos bancos de sêmen busca-se a inseminação artificial e, nos laboratórios mais sofisticados, as cirurgias de mudança de sexo e as experiências de clonagem prometem, de uma vez por todas, a felicidade total, a perfeição, a longa vida sem doenças. Nos bancos de sangue, a esperança de que a morte será descartada. Via internet, o tele-sexo virtual será a diversão dos mais tímidos, receosos do confronto corpo a corpo. Será o reinado do narcisismo, com o predomínio do corpo sobre a mente, do imaginário sobre o simbólico?

Certamente que a invenção da psicanálise estimulou ou provocou a liberação sexual, a emancipação feminina, levando as mulheres a descobrirem o próprio corpo, antes vestido com a couraça da repressão. É, sobretudo, o corpo feminino que recebe cuidados estéticos, maquiagens, roupas de grife, cílios, sobrancelhas, unhas e cabelos postiços. O que leva as mulheres a subestimar os próprios dons, para substituí-los por similares artificiais? O que as leva a cultivar a beleza e a sensualidade? Será para agradar aos homens, ganhar fama ou dinheiro? Ou simplesmente, para agradarem a si mesmas, de novo, o eterno narcisismo?

Nada disso era estranho a Freud que, no texto "O mal-estar na cultura", afirmou que não podemos ignorar a "técnica da arte de viver", segundo a qual "a felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza" e que, tendo em vista "a fragilidade de nossos corpos, ... o homem, por assim dizer, tornou-se uma espécie de 'Deus de prótese' "4.

E foi ele mesmo que nos recomendou recorrer aos poetas, para entendermos mais rapidamente tudo o que a psicanálise, só a custo de exaustiva pesquisa, consegue alcançar.

Nesse intuito, cito um dos maiores poetas da humanidade, falando sobre os segredos da arte de bem viver e amar:
Como deve cuidar do corpo a mulher que quer seduzir?

" Emagrece o corpo com vigílias, os cuidados e a dor, que o fruto amargo são de um grande amor. Para veres teus desejos coroados, Que o teu aspecto inspire piedade ".

Como se comportar na cama?

" A cama é o lugar onde nasce o perdão. (...) Dizem ainda que, no mesmo sítio, uma mulher e um homem se encontraram. O que os seus corpos tinham que fazer aprenderam sozinhos, sem mestre o praticaram".

Para quê serve a cirurgia plástica?

"É a beleza da mulher um dom divino. Mas quantas podem orgulhar-se dela? A maioria de vós não foi favorecida com tão alto presente. Mas, uma face bela, com arte, poderá ser conseguida".

Penteados e perucas:

" Dos vários penteados escolhe o que melhor te assenta e, antes de tudo, o espelho consulta. Com cabelos comprados, a troco de dinheiro, avanças, ó mulher, com espessa cabeleira. Tornam-se teus os cabelos alheios que tu usas".

Como escolher a cor dos vestidos:

" Escolhe a que te vai bem, porque a todas as mulheres nem toda a gama convém. À tez branca como a neve, a cor negra se afeiçoa. Vai bem o branco às morenas".

Produtos cosméticos:

" O intervalo que as sobrancelhas distancia sabeis remediá-lo com acentuado gosto. Uma película de cosmético vela a cor natural do vosso rosto, e justamente não corais quando a linha dos olhos destacais com fina cinza ou com o açafrão".

Camuflando os defeitos do corpo:

“ Rara é a figura sem defeito. Escondei esse senão, mulheres! Quanto possível dissimulai a vossa imperfeição. Se tua magreza é exagerada, usa vestidos de espesso estofo, e das tuas magras espáduas um largo manto se desprenda. Pequenos chumaços deve usar quem tiver ombros salientes, e se os teus peitos forem chatos, torne-os o espartilho mais evidentes ".

Como escrever bilhetes para o amante:

" Quando escreveres ao teu amante, devem julgar os outros que escreves a uma amiga. Diz ‘ela’ onde pensas ‘ele’".

Olhares e sorrisos:

" O amor nasce da doçura de um olhar! (...) A quem te olha não negues o olhar; ao sorriso que docemente te alicia responde com um sorriso aliciante".

Fingindo o orgasmo:

" Mesmo se a natureza te negou de Vênus as frementes sensações, finge o doce prazer experimentar, com mentirosas inflexões".

E o ponto G?

'Impede-me o pudor de prosseguir. Do teu órgão, mulher, são secretos os meios de expressão"5.

A extensa citação dos versos da "Arte de amar", de Ovídio, poeta que viveu no século I, entre os anos 43 (a.C) e 18 (d.C), foi feita com o propósito de mostrar que, decorridos dois milênios, não é fácil constatar mudanças profundas na relação da mulher e do homem com seus corpos. Isto sugere que uma projeção sobre o que será o corpo, no século XXI, é por demais arriscada, devido ao pequeno lapso de tempo que representa um século, na longa história da humanidade. E, com certeza, se há um destino que nunca se modificará, para qualquer corpo, é a sujeição à morte. Entretanto, existem alguns indicadores de mudança que provocam nossas reflexões.

O título deste trabalho, "O corpo ‘siliclônico’", destaca duas modalidades de intervenção no corpo, pela estética e pela engenharia genética.

Modificar esteticamente o corpo não é novidade. Há culturas em que se tenta encompridar o pescoço, encurtar os pés, diminuir a cintura, introduzir cilindros de madeira nos lábios para aumentar seu volume. A moda, hoje, é injetar próteses de silicone nos seios, nas nádegas, no pênis, para salientar as formas ou melhorar o desempenho. Procedimentos de lipoaspiração e de cirurgias da mama buscam o efeito contrário, de reduzir volumes. Há também os que decidem pela troca de sexo. É sempre o imaginário na busca da completude, do corpo perfeito, do irresistível objeto de desejo, da negação da falta, da busca da longevidade e da imortalidade, a incansável negação da morte.

Fazer do corpo um claro objeto de desejo ou de admiração, como o corpo da top-model, do atleta de musculação, enfim, o corpo fálico, são modos modernos para velhos objetivos, do prazer ao dinheiro.

Mais preocupante e instigante, para a psicanálise, é a segunda modalidade de intervenção, a da engenharia genética, especialmente a clonagem. As recentes experiências de clonagem com animais revelaram um dado assustador e impensável desde sempre: que além das células sexuais, também as células somáticas podem promover a reprodução da espécie. Que a reprodução possa acontecer independente de uma relação ou cópula sexual, que o indivíduo de sexo masculino também possa engravidar e gerar um filho, que casais homossexuais possam ter filhos, são dados que os cientistas jamais calcularam, que os poetas desconheceram, e que só apareciam em fantasias ou sonhos.

Enquanto esta experiência radical não chega à espécie humana, há outras em andamento, com a chamada reprodução assistida, as fertilizações in vitro, as barrigas de aluguel, em que a presença de um homem no ato da cópula é totalmente descartável. As mulheres podem ter suas produções independentes, embora dependendo da intervenção (ou desejo) do outro, o médico.

Uma das várias questões decorrentes daí já era preocupação para Lacan. No seminário IV, em 1957, comentando o caso de uma mulher que recorreu à inseminação artificial post mortem, utilizando o esperma congelado do falecido marido, declarou:

" Deixo-lhes a preocupação de extrapolar: a partir do momento em que enveredarmos por esse caminho, faremos nas mulheres, dentro de centenas de anos, crianças que serão filhos diretos dos homens de talento que vivem atualmente, e que, daqui até lá, terão sido preciosamente conservados em vidrinhos. Nessa ocasião, cortaram alguma coisa do pai, e da maneira mais radical: inclusive a palavra. A questão agora é saber como, por que caminho, de que maneira, se inscreverá no psiquismo da criança a palavra do ancestral, do qual a mãe será o único representante e o único veículo. Como irá ela fazer falar o ancestral enlatado? "6.

Uma inseminação artificial, mesmo durante a vida do doador, não estaria denunciando um recalque na sexualidade? Seria indiferente, ou sem consequência, desvincular a gravidez da relação e do prazer sexuais? Haveria alguma modificação significativa na ausência de uma "cena primitiva" real? Como os futuros filhos de tais gravidezes organizariam suas fantasias? Até onde as mulheres suportariam o peso da onipotência criadora? O que aconteceria com a imagem especular demais das crianças clonadas? Qual seria o significado do desejo da mãe, por parte desta e do filho clonado?

Não seria a clonagem uma nova e moderna tentativa de produzir uma raça pura, finalmente ariana e com DNA selecionado, superior, um retorno da política nazista, sem necessidade das câmaras de gás, camuflada de avanço humanitário e científico? Afinal, Hitler utilizou justamente argumentos de estética e aprimoramento da raça, como um ideal e benefício para toda a humanidade. São questões cujas respostas não podem ser previstas com clareza. Já que a psicanálise trabalha sempre com informações "a posteriori", somente dados clínicos, decorrentes de uma escuta, poderiam autorizar uma hipótese teórica. Freud, nas "Novas Conferências introdutórias sobre Psicanálise", foi bem explícito nesse ponto, quando disse: "Nossos diagnósticos são feitos após os eventos"7.

Vários cientistas já admitem que a clonagem de humanos é inevitável, com prazo previsto de alguns anos, embora a opinião pública seja reticente, devido ao receio de que se possam clonar exércitos de ditadores idênticos.

O argumento favorável dos cientistas se baseia no conceito de "clonagem terapêutica", efetuada com células-tronco de embriões, já que a legislação atual proíbe a clonagem de um adulto. As células-tronco embrionárias são as que resultam das primeiras divisões do óvulo fecundado. São mais adequadas para a clonagem do que as células adultas, já que possuem a capacidade de transformarem-se em qualquer célula do corpo adulto, poder que as células adultas já perderam. Na opinião dos cientistas, para casais que não tivessem nenhuma outra chance de terem filhos, estaria justificado o recurso a este método, embora os riscos e as consequências sejam desconhecidos.

Richard Gardner, coordenador do comitê da Royal Society sobre o assunto, declara que, "embora provavelmente vá haver uma notável semelhança física, o clone diferiria do original na maioria dos mais elevados atributos mentais que definem um indivíduo”8.

Mesmo na espécie animal, a clonagem é um procedimento com poucas chances técnicas, por enquanto. O caso da ovelha Dolly (1997) só aconteceu depois de 277 tentativas. O procedimento "envolveu a fusão de uma célula de ovelha adulta com um óvulo, do qual se retirara todo o material genético. Uma descarga elétrica fez com que a nova célula criada 'acordasse' e começasse a se dividir, gerando um embrião"9.

Até a década de 70, o máximo que se conseguia fazer era cruzar animais ou plantas da mesma espécie, para criar novas raças ou híbridos. A partir de 70, iniciou-se a engenharia genética e, com a manipulação direta dos genes, foi possível misturar espécies diferentes. Por exemplo, cães e gatos podem ser misturados, formando um novo espécime que poderia ser cientificamente chamado de "cagatus artificialis". As crianças vão adorar quando a mulher-gato, o homem-aranha e o Batman deixarem de ser só personagens de ficção.

Uma das técnicas da engenharia genética consiste na passagem de genes de um organismo a outro, usando-se vírus ou bactérias. Os genes de um organismo são transplantados ao vírus, que, por sua vez, é implantado no organismo em que se deseja depositar o material genético. Assim, os genes espalham-se pelo organismo, transformando seu material genético e suas propriedades.

Tal procedimento pode visar a erradicação de pragas ou doenças, bem como aumentar a produção de alimentos transgênicos para populações famintas. Estuda-se também a aplicação da geneterapia para tratamento de doenças nervosas, como Parkinson, Alzheimer etc. Mas, continua a dúvida sobre as consequências, a médio ou longo prazo.


Para concluir, uma breve observação tirada de minha experiência clínica. Partindo do início de meu trabalho como analista, mais de vinte e cinco anos atrás, comecei a perceber um aumento de demanda de análise por parte de homossexuais masculinos. Nos últimos quinze anos, a incidência também grande de pacientes homossexuais femininas. Mais ou menos nos últimos cinco anos, começam a aparecer casos de pacientes bissexuais. Mais recentemente ainda, o sexo virtual, via internet, que é uma interrogação. Além da constatação em si, não arriscaria um prognóstico sobre o rumo que a conjunção dos corpos e a escolha sexual possam seguir no futuro. De qualquer maneira, já podemos deduzir que a homossexualidade e a bissexualidade são uma prova de que, entre os seres falantes, a sexualidade não é tão natural como afirmou Ovídio, e sim, um fato de cultura.

Enfim, por que será que o corpo humano se presta a tantas vicissitudes? Talvez porque, com relação ao sujeito humano, no dizer de Freud, "o ego não é o dono da própria casa"10. E do inconsciente, sabemos bem de que é capaz.

Citações
1. FALBEL, Nachman. in Corpo e mente, Casa do Psicólogo, São Paulo, 1995.
2. GERBER, RICHARD. Medicina Vibracional, Ed. Cultrix, São Paulo, 1997.
3. FREUD, S. Esboço de Psicanálise, ESB, vol. XXIII, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1975.
4. FREUD, S. O mal-estar na civilização, ESB, vol. XXI, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1974.
5. OVÍDIO. A arte de amar, Ed. Ars Poetica, São Paulo, 1992.
6. LACAN, J. A relação de objeto, Seminário IV, Jorge Zahar Ed. Rio de Janeiro, 1995.
7. FREUD, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise, ESB. Vol. XXII, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1976.
8. GARDNER, Richard. in Jornal Folha de S. Paulo, 05-09-00.
9. Idem.
10. FREUD, S. Uma dificuldade no caminho da Psicanálise, ESB, vol. XVII, Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1976.

Obs. Este artigo foi publicado originalmente na Revista Textura (São Paulo)., v. 2, p.28-32, 2002.