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EXISTE UM MASOQUISMO FEMININO?

Mani Alvarez

Este tema poderia ser abordado por diferentes viéses teóricos; uma teoria é nada mais que uma moldura, um recorte, uma rede que se lança sobre a escuridão do real. Ela colhe alguns aspectos e, naturalmente, deixa outros de fora. Eu escolhi abordar essa questão do masoquismo dito feminino pelo viés do ‘neo-estruturalismo’ lacaniano, porque ele permite uma visão da diferença sexual para além da polarização homem/mulher e, com isso, outras formas de erotismo podem vir à luz.

O masoquismo, de fato, coloca uma aporia, um enigma para a psicanálise. Se nosso psiquismo é organizado segundo o princípio do prazer, o que faz com que alguns seres busquem (deliberadamente ou inconscientemente) a dor física, o sofrimento moral, a degradação humana?

Freud fala de três formas de masoquismo: o erógeno, o feminino e o moral. Vamos começar pelo masoquismo moral, que é o mais genérico. Esta forma de sofrimento está mais esclarecida no texto O Mal Estar na Civilização, onde Freud demonstra que há um preço a pagar pela cultura que criamos. Somos todos obrigados a ceder em nossos desejos e nossa libido para um fim social. O trabalho, o estudo, a fidelidade, a monogamia, são exemplos desse sofrimento que, consentidamente, infligimos a nós mesmos. Isto é o que constituiria o ‘princípio de realidade’, espécie de estratégia psíquica que desloca o prazer imediato da libido para ganhos secundários, porém mais duradouros. Aceitar esse jogo, entretanto, implica numa renúncia ao prazer imediato, e num certo consentimento ao sofrimento com vistas a um ganho futuro. Ora, isto é o que caracteriza o masoquismo. As exigências da cultura nos transformam, portanto, em masoquistas por excelência.

Em seguida, há o polêmico ‘masoquismo feminino’, e sobre isso diz Freud que ele repousa totalmente sobre o ‘masoquismo erógeno’, que é propriamente o prazer na dor. Não vou me deter nas explicações técnicas de Freud, porque gostaria de ressaltar mais os aspectos subjetivos que resultam dessa modalidade de libido.

Contudo, acho que seria interessante guardar de Freud três coisas: primeiro, no masoquismo feminino, o sofrimento vem sempre da pessoa amada; não é qualquer um que pode desempenhar esse papel. Segundo, para ele o masoquismo seria um resquício das pulsões de morte no momento em que sobrevém as pulsões de vida. Isto parece um pouco confuso. Pensem o seguinte: a morte é o irrepresentável. É a passividade absoluta. Isto persiste, ainda que no âmago da palavra. No interior da palavra, não obstante sua função simbólica, tudo que há é um vazio absoluto que não remete a nada, a não ser a outra palavra. Esta é a chamada função metonímica da linguagem. Talvez Freud tenha pressentido, na essência do masoquismo, a presença da morte – no movimento mesmo que gera a vida, tal qual ocorre com as palavras.

Finalmente, ele ressalta que o masoquismo é a face inversa do sadismo; apenas, um é dirigido para o interior (como um resíduo da pulsão de morte) e o outro para o exterior, atuando sobre os objetos.
Agora, vamos tentar um enfoque estrutural, e pensar que lugar é esse que ocupa alguém que busca o prazer na dor, e que consequências podem advir disso.

Primeiramente, pode-se dizer que há tanto um masoquismo masculino quanto um feminino. Isto, porém, difere radicalmente quanto à especificidade do gozo (aqui entramos com mais um conceito lacaniano, o gozo).

Há um texto de Freud, escrito em 1919, chamado ‘Bate-se numa criança”, que deu margem a muitos mal-entendidos sobre essa questão. Nesse texto, Freud está preocupado em desvendar as fantasias masculinas de espancamento, e diz literalmente que o masoquismo coincide com uma posição feminina (lembrando que ele está falando do masoquismo no homem). A confusão aumenta quando, nesse texto, ele define o masoquismo como uma “expressão do ser da mulher”.
Essas duas declarações, diga-se a bem da justiça, não visam esclarecer a sexualidade feminina, já que ele se ocupava em descrever as práticas perversas e os ‘fantasmas’ masoquistas dos homens. O que ele percebe, nesse estudo, é que há uma equivalência entre se fazer bater e o lugar feminino na relação sexual, conforme o olhar masculino. É como se a “cena primitiva” sofresse uma deformação, e o ato sexual passasse a significar uma cena de violência, de açoitamento da mãe pelo pai, de submissão à dor física para obter prazer. Assim, através de uma identificação com a mãe, ou melhor, com a posição sexual da mãe na relação, vista por uma criança, um homem pode vir a desenvolver comportamentos masoquistas, visando inconscientemente também poder gozar do amor do pai.

Nesse caso, segundo Freud, as fantasias masculinas de espancamento representam uma identificação com a posição feminina no coito, e encobrem um homossexualismo latente. Mas, isso explica apenas o comportamento masoquista masculino, e não o feminino. Nas situações em que isto ocorre, há sempre o componente perverso de um gozo sob contrato, há uma premeditação, uma busca consciente do prazer. Trata-se de um jogo onde os parceiros sabem muito bem o que querem e buscam conscientemente sua satisfação. Os filmes relatam esse tipo de perversão com muito realismo.
Coisa bem diferente do que ocorre com o masoquismo feminino. A única semelhança, se é que existe uma, é que o masoquismo masculino tem alguma coisa a ver com a mulher e sua maneira de amar. Ou seja, para amar, uma mulher se faz naturalmente objeto do desejo do outro. Nessa posição de fazer-se objeto do desejo do outro, Freud descobre, então, algo fundamental na sexualidade humana: a função do “fantôme” (fantasma, ou fantasia), na vida sexual de homens e mulheres. Só que, enquanto ele viu nisso apenas uma relação com a patologia e o sofrimento, Lacan percebeu a afinidade do “fantôme” com o gozo, ou seja, com a sexualidade. Estamos, pois, diante de um fenômeno exclusivamente humano: ao contrário do que a maioria pensa, nosso gozo não é induzido pela estimulação dos sentidos, nem pela fisiologia ou ação dos hormônios no corpo, mas sim, pelo fantasma inconsciente que existe em cada um.

O que isto significa exatamente? O fato de precisarmos de palavras, de sermos seres falantes, indica que portamos uma divisão intrínseca com a natureza. Não somos seres naturais, como o são os animais. Nossa sexualidade não é regida por códigos genéticos nem por funções fisiológicas. Sendo assim, o que define, então, nossa escolha sexual? O que determina as preferências, as opções, a atração sexual por esta ou aquela pessoa?

Como vimos, são os nossos “fantasmas”, dirá a psicanálise. Ou seja, as representações inconscientes de uma cena prazerosa da infância. Num processo transferencial, isto pode vir à tona; através da fala isto pode se tornar consciente e vir a preencher as lacunas de uma história. As fantasias são os nomes da “Coisa” (do indizível), símbolos, do grego symboloi, que significa cópula, re-união, re-ligamento. Ou seja, por sermos divididos no âmago de nós mesmos necessitamos de símbolos para nos re-unir de novo a nós mesmos.

Assim acontece o amor. Eros tem exatamente essa função, função de cola: o que nós amamos no outro é nada mais do que aquilo que fantasiamos como sendo o que nos falta. Através do amor nos complementamos e vivemos a ilusão de uma unidade perdida.

Agora a coisa vai ficar mais complicada um pouco, graças ao masoquismo. Quando Lacan estabelece essa relação da ‘’fantasia’ com o gozo, ele descobre duas coisas: primeiro, todos os seres gozam mediante suas fantasias ‘fálicas’ (‘falo’, o que vem no lugar da incompletude). Ou seja, mediante um objeto que se reveste do brilho fálico para atrair o desejo. O “falo” é um conceito criado para explicar a falta de um objeto complementar para o ser humano. No lugar disso que falta, colocamos palavras, símbolos, significantes. Por exemplo, um ideal, um filho, o trabalho, a devoção, o dinheiro, cartão de crédito, motos, carros, joias etc.

Mas, existem seres que prescindem do objeto fálico. Ora, se prescindem do objeto fálico, elas gozam do quê? Teoricamente, só poderiam gozar do real sem véus, sem mediações, sem símbolos e sem palavras. Sim, porque se não há um símbolo para cobrir o real, há só o real inatingível, indizível, inexplicável. A esta modalidade de gozo Lacan chamou de gozo feminino, por excelência. Porque feminino? Porque, segundo a teoria neoestruturalista lacaniana, como eu disse no início, o feminino permite pensar a diferença sexual topologicamente, segundo lugares psíquicos diferenciados e não opostos ou inversos entre si.

Explicando melhor: se o masculino é uma organização psíquica fortemente determinada e limitada pelo ‘falo’, o feminino não é necessariamente o seu oposto; pelo contrário, ele constitui um lugar para além do ‘falo’, aquém desse conjunto ou dessa unidade, um lugar fora com características próprias, cujo maior dom é sua independência de um objeto para gozar. Esse estar fora não define um lugar, mas um aberto. Imaginem um círculo fechado; fora do círculo não define um lugar, mas um estar fora do círculo.

Consequentemente, sua disposição para o amor é mais ampla, porque não é determinada pela genitalidade. Por outro lado, seu desejo sofre de uma permanente irrealização, uma vez que não há objeto. Não necessariamente busca o prazer ou suas representações. A posição feminina (independente do gênero) vivencia a divisão no âmago de si de maneira absolutamente paradoxal.

É verdade que esse gozo é de outra ordem. Não estamos falando de orgasmos aqui. Estamos, de fato, muito mais perto do êxtase místico que nossa civilização ocidental quase esqueceu. Os antigos orientais falam de uma experiência muito intensa que obtinham através da vivência do caráter sagrado das coisas da natureza. Ou seja, matéria e espírito andavam juntos, de mãos dadas, no tempo em que o sexo também era uma coisa sagrada.

Quando a mente começou a se distanciar dessa forma passiva da libido, os monges orientais começaram a desenvolver técnicas e exercícios especiais para fazer a mente voltar àquele estado anterior de passividade absoluta diante da natureza. Uma das formas era colocar questões sem resposta para os seus discípulos. São os chamados Koans, perguntas paradoxais e sem sentido, que criavam um verdadeiro impasse mental, porque não havia resposta.

Só quando a mente se deixa penetrar pela contradição do Koan, diziam os mestres, ela adquire a passividade mais absoluta, a quietude, a mansidão do silêncio interior. O estado de ‘wu-wei’ significa a receptividade absoluta para o outro, o diferente, o universo. Uma dessas frases dizia o seguinte: “Move e não se move. Está longe e está perto. Está dentro de tudo isso e está fora de tudo”. Quando a mente se deixa impregnar por essas palavras, sem tentar resolver a contradição inerente, ela repousa, porque está em Deus (pode ser outra palavra para o gozo). O objetivo do Koan não é decifrar uma charada, mas sim, ensinar a suportar a falta de respostas, a ausência absoluta de significações, de representações, de símbolos. Ao contrário de Eros, que busca a união, os estados místicos buscam a solvência de si mesmo, da individualidade e até mesmo da subjetividade, no Todo.

Quem já leu os Cânticos de Tereza d´Ávilla, as orações torturantes da mística Hadewijche, da Antuérpia, as invocações de São João da Cruz, percebe que eles falam de amor, não de desejo objetal ou fálico. Eles falam de Outra coisa. Para se aceder a esta Outra coisa, eles recomendam um caminho de sacrifícios, de sofrimentos atrozes, até mesmo de autoflagelação. É o sacrifício do ego.

Isto demonstra que o estado de passividade tem de ser conquistado, aprendido. Para os místicos o prazer (do objeto) é muito pobre; eles querem o gozo (da falta do objeto), o êxtase (ex-tase = estar fora de si). Todavia, para suplantar o desejo, é preciso anular o sujeito que deseja. Os golpes narcísicos que se autoinfligem colocam-nos muito próximos da loucura. O êxtase que buscam é nada mais que a dissolução da unidade egoica no Todo.

Bem, nessas alturas já ficou explícito onde entra o masoquismo em tudo isso. Só que, onde Freud viu patologia, Lacan viu o Outro gozo – ao qual chamou de ‘feminino’.

Tentando lançar um olhar antropológico para essa questão, tendo a ver, nessa modalidade de gozo, exatamente o que foi reprimido em nossa civilização patriarcal. E constato que não há lugar para essa modalidade libidinal em nossa cultura atual, a não ser nas montanhas do Tibet. Cada vez mais estamos sendo levados para mais dependentes do falo, dos objetos, de qualquer coisa que supra a falta, ainda que seja a falação, a tagarelice. O silêncio nos apavora. A falta de estímulos objetais nos angustia. Nada mais prazeroso do que a visão estarrecedora de um shopping Center bem cheio. Não é de espantar que consumismo e libido são tão aparentados, ao ponto do capitalismo se tornar o sistema mais poderoso criado pela versão patriarcal da humanidade.
O que vou dizer pode chocar, mas a opressão, que milenarmente vem sofrendo a mulher, não é exatamente sobre a mulher, mas sobre essa modalidade de gozo feminino que prescinde de objetos e, na pior das hipóteses, do próprio homem. O êxtase místico não é propriamente uma relação sexual. É uma relação com Deus (ou com a falta absoluta de objeto), acreditem ou não na sua existência. Deus é o nome de empréstimo da ausência de nome, élan místico indizível que se funda sobre uma falta que diria tudo.

Mas, há ainda uma outra questão: se o masoquismo é como que uma testemunha adulterada desse Outro gozo – ou seja, ela não goza, ela é gozada pelo outro – como podemos reconhecer entre esse e aquele?

Freud, quando não sabia dar respostas, apelava para os poetas. Ele dizia: perguntem aos poetas! Foi exatamente o que eu fiz. Perguntei ao poeta Chico Buarque, o mais feminino dos homens, tão feminino que podia ser comparado a Tirésias, o profeta cego do mito grego. Conta o mito que Tirésias viveu sete anos metamorfoseado em mulher, e que, ao retornar ao seu corpo masculino, ele contou que a mulher encontra no amor um prazer dez vezes maior e mais intenso do que o homem. Hera, esposa de Zeus e guardiã dos segredos femininos, ficou furiosa e o condenou à cegueira por ter cometido essa indiscrição imperdoável. Mas Zeus, penalizado, lhe concedeu o dom da profecia, para que pudesse continuar vendo com os olhos da alma. A fúria de Hera se deve a que, ao contar o segredo do Outro gozo da feminilidade, Tirésias o reduzia a algo passível de ser comparado, de ser invejado e perseguido. A deusa sabia que o gozo feminino era de outra ordem, de outro registro e o segredo tinha por fim manter essa distinção.

Mas, como dizia, foi assim que eu perguntei ao Chico-Tirésias o que ele sabia das mulheres. E ele, com medo da fúria das deusas, respondeu com uma canção que se chama assim: “Umas e Outras”. Diz a letra:

“Se uma nunca tem sorriso, é pra melhor se reservar;
E diz que espera o paraíso, e a hora de desabafar.
A vida é feita de um rosário, que custa tanto pra acabar...
Por isso, às vezes ela pára, e senta um pouco pra chorar.
Que dia! Nossa, pra que tanta conta, já perdi a conta de tanto rezar...
Se a outra não tem paraíso, não dá muita importância não;
Pois, já forjou o seu sorriso e fez, do mesmo, profissão.
A vida é sempre aquela coisa, aonde não se escolhe o par,
Por isso, às vezes ela cansa, e senta um pouco pra chorar...
Que dia! Puxa, que vida danada, tem tanta calçada pra se caminhar...
Mas, toda santa madrugada, quando uma já sonhou com Deus,
A outra, triste namorada, coitada, já deitou com os seus.
O acaso fez com que essas duas, que a sorte sempre separou,
Se cruzem pela mesma rua, olhando-se com a mesma dor...”

Analisemos: enquanto uma se reserva para Deus, a outra, para todos os homens, ou seja, para qualquer um. Qual a diferença entre um desejo que se esconde sob o hábito e aquele que se mostra sob uma saia curta? Parece que ambas ocupam o mesmo lugar psíquico (o passivo), ambas são movidas por um desejo que não se diz e permanece insatisfeito e irrealizável. Afinal, Deus não é objetivável; qualquer um também não. Situadas em dois extremos da vida, ambas seguem o mesmo caminho, o caminho de dor. Uma via crucis, que muitas vezes é tão somente a rua.

O que difere uma da outra em suas buscas não é de ordem moral; é algo da ordem de uma vivência subjetiva da falta na estrutura psíquica. Enquanto uma se eleva (busca o gozo) a Deus, a outra se submete (busca ser gozada) ao falo. Parece que tudo se prende a uma certa posição do sujeito na sua história. Há uma aceitação/recusa da falta na busca da mística, há uma recusa/aceitação na outra que busca o falo. Pois, se é verdade que Deus não é objetivável, também muitos homens não fazem Um.
O masoquismo feminino participa da mesma recusa/aceitação: quanto mais se submete, fazendo concessões sem limites ao sadismo do parceiro, mais se distancia do seu próprio gozo. No sentido mesmo da palavra, mais se deixa sofrer uma gozação.

De uma forma bem ampla, o lugar que ela ocupa é também aquele que foi concedido à sexualidade feminina em nossa cultura, ou seja, um lugar de gozação. Não foi gratuito que o feminismo surgiu na história.

O masoquismo feminino testemunha uma organização libidinal decaída, ultrajada, rebaixada, não-desejante, da mulher. Na falta do objeto, ela se faz um (objeto) para o homem. Mesmo na qualidade de ‘fantasma’ masculino, ou seja, de objeto que causa o seu desejo, a sexualidade feminina tem um quê de masoquismo. Ela é heroica naquilo que representa, é mártir naquilo que aceita, é puta naquilo que engana, é mística naquilo do qual goza.

Palestra apresentada no III Encontro de Psicologia do Caism/Unicamp – 13 a 15 de outubro de 1994.